300 Armamentistas

 

    Há 2500 anos atrás, 300 espartanos pegaram em armas e no desfiladeiro das Termópilas, esperaram.

    Esperaram pelo maior exército que caminhara sobre a face da terra. Esperaram pela batalha que poria fim à sua própria vida, ou à sua Liberdade. Esperaram pela morte.

    E chegada a hora, o mar de inimigos se colocava adiante; cada um deles se dissolvia na multidão como um grão de areia se dissolve no deserto.

    Foi então que o Rei dos Milhares se defrontou com o Rei dos 300, e de rei para rei, propôs a paz. Xerxes ofereceu a Leônidas uma alternativa à morte certa. Xerxes ofereceu a vida. A sua e a de seus compatriotas. A sua cidade não precisava ser destruída; as suas mulheres e crianças não precisavam ser estupradas e assassinadas. E para isto, bastava apenas que entregasse suas armas.

    Certamente parecia um argumento razoável, e tinha a força dos números: 3 centenas, contra muitos milhares.

    Mas há algo paradoxal no ato de entregar as armas. Isso porque fazê-lo  consiste justamente em dar ao teu inimigo o poder sobre a vida: a tua, e a dos teus. Entregar as armas, sob a promessa de que você e os teus serão poupados, consiste justamente em entregar ao teu inimigo o poder sobre a vida da tua mulher, sobre a vida dos teus filhos, e sobre a tua. Consiste justamente em dar ao teu inimigo o poder que ele tanto deseja, e pelo qual foi à guerra.

    Entregar as tuas armas dá ao teu inimigo um poder ainda maior do que aquele que ele teria ao subjugá-lo em combate, pois permite que a tua morte seja ao gosto do executor. E o pior: entregar as tuas armas consiste em confiar que o teu inimigo não fará uso do poder que foi à guerra para obter. Consiste em confiar que que os traiçoeiros terão honra e palavra, que os maus terão bom coração. Uma vã esperança, à qual se agarram apenas aqueles covardes demais para encararem a verdade, olhando-a nos olhos.

    Mas aos que têm coragem a verdade se desnuda, e as águas opacas das esperanças ilusórias se tornam límpidas e translúcidas, tranquilas, e através delas a realidade se exibe sem vergonha. E a realidade é que entregar as armas nada tem de racional, mas é apenas uma opção dos covardes. Dos covardes que sacrificam a vida dos seus pela sua própria, sob o pretexto de protegê-los. Dos covardes que sacrificam a liberdade por uma vida humilhante de subordinação e escravidão. E dos covardes que sacrificam a verdade pela vã esperança de que seus inimigos tenham alguma piedade.

    Mas o Rei Leônidas certamente tinha coragem. Para ele a realidade se exibiu sem hesitação, sem cerimônia, e a verdade, ele pôde contemplar, nua, e crua, e contemplando-a, não lhe ocorreu aceitar a opção dos covardes. O Rei dos 300 então respondeu ao Rei dos Milhares, lacônica, e corajosamente:

 

MOLON LABE

VENHA TOMAR

 

    E naquele momento histórico, a frase ganhou vida, e um novo significado: passou a significar não o sacrifício da liberdade pela vida, mas o da vida, pela liberdade. Liberdade, ou morte.

    Ainda hoje, há aqueles que nos querem desarmados. Aqueles que querem a nossa propriedade, a nossa vida, e a nossa dignidade. Os criminosos, os políticos corruptos, e aqueles com ideologias totalitárias ainda hoje nos exigem: entreguem suas armas.

    Mas se a gana pelo poder e o ímpeto tirânico resistiram a ação do tempo, a coragem, e a disposição de ir até o fim na luta pela liberdade também o fizeram. E ainda hoje a frase do Rei Leônidas ecoa dos lábios daqueles que jamais entregarão as suas armas. E eles o saúdam. O seu elmo espartano, entrecruzado por dois fuzis, tornou-se símbolo anacrônico do seu último ato de coragem, ato que os espartanos de hoje esperam reproduzir, caso necessário.

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